A imagem mostra duas formas orgânicas e irregulares, semelhantes a feijões ou rins, sobre um fundo bege claro. A forma da esquerda é maior e tem cor marrom-avermelhada, enquanto a da direita é menor e possui um tom bege bem claro. Ambas têm contornos suaves e arredondados, criando uma composição minimalista e abstrata, sem detalhes ou texturas aparentes.

O Luto Afetivo do Divórcio: Quando o amor termina, mas algo em nós não

O luto afetivo no divórcio não começa no dia que se assina um papel, n

Há finais que não acontecem de uma vez.em quando alguém sai pela porta.acontecem de uma vez.

Eles não têm o barulho de uma porta batendo, nem o gesto brusco de quem vai embora para sempre.

Alguns finais são silenciosos: começam enquanto ainda existe rotina, continuam enquanto os dias se repetem, e só se revelam quando já não há mais como sustentar o que restou.

E, mesmo assim, o corpo demora para entender.

Há uma parte nossa que tenta seguir, outra que tenta resistir, e outra, talvez a mais solitária, que não sabe onde guardar tudo o que ficou sem destino.

É como se o fim tivesse acontecido do lado de fora, mas continuasse vivo do lado de dentro, insistindo em existir onde não há mais lugar para ele.

É esse intervalo, entre o que terminou e o que ainda respira, que chamamos de luto afetivo.

Ele não começa no dia da separação.

Começa muitas vezes antes, naquilo que o amor deixou de ser e no que cada um precisou deixar de si para tentar ficar.

Há histórias que terminam muito depois do fim.

E talvez o luto afetivo seja exatamente isso: o tempo necessário para que o corpo encontre o ponto onde o amor já havia ido embora.

Quando o fim ainda respira por dentro

O luto afetivo no divórcio é uma travessia que não se resolve por decisão.

Não é racional, não respeita calendário, não se ajusta à pressa nem ao olhar dos outros.

Ele é íntimo, lento e, muitas vezes, confuso.

Quando o amor termina, o sujeito não perde apenas um vínculo: perde também um modo de existir, uma rotina afetiva, um espelho emocional, uma narrativa construída ao longo de anos.

É como se a vida precisasse se reorganizar em todos os lugares onde aquela relação antes existia.

E, dentro dessa reorganização, há uma dor que não se explica facilmente:

a sensação de que o corpo continua segurando um vínculo que já não está mais lá.

O luto afetivo não é saudade.

É a ausência que dói porque ainda está presente.

O corpo que não entende o término

O corpo leva mais tempo para aceitar o fim do que a mente.

Ele ainda espera a mensagem, a presença, o toque, o gesto diário.

Ele ainda se organiza a partir do antigo “nós”, mesmo quando esse nós deixou de existir.

É comum aparecerem:

  • aperto no peito ao acordar,
  • dificuldade de dormir,
  • sensação de vazio atrás do esterno,
  • perda de apetite ou fome que tenta preencher algo,
  • cansaço que não vem só das lágrimas,
  • oscilações de humor,
  • pensamentos repetitivos que tentam encontrar lógica no que não tem lógica.
 

O corpo protesta.

Ele tenta manter vivo algo que já se foi, não porque seja fraco, mas porque aprendeu a respirar junto com o outro.

E reaprender a respirar sozinho exige tempo, silêncio e cuidado.

O amor que acaba, mas a história que fica

O fim de um relacionamento não encerra de imediato tudo o que ele representava.

Mesmo quando a separação é necessária, esperada ou inevitável, há um impacto emocional que não depende da consciência.

O luto afetivo nasce do choque entre dois tempos:

  • o tempo da vida, que segue,
  • e o tempo interno, que precisa ficar um pouco parado.

É nesse intervalo que surgem perguntas:

  • “Por que ainda dói se eu sei que foi o melhor?”
  • “Por que ainda penso, se nada mais faz sentido?”
  • “Por que parece que uma parte de mim ficou presa lá atrás?”

Porque o fim não apaga a história.

Ele apenas exige que ela encontre outro lugar dentro de nós — e isso não acontece sem dor.

O luto não é sobre voltar.

É sobre conseguir seguir sem apagar o que existiu.

O que fica do que acabou

O divórcio mobiliza o que foi vivido e também o que não pôde ser.

Os sonhos não realizados também precisam ser enterrados.

Os planos que tinham dois nomes perdem forma.

Os espaços da casa parecem maiores do que deveriam.

As certezas ficam pequenas.

As dúvidas crescem.

E o sujeito se pergunta, muitas vezes em silêncio:

“E agora, quem sou eu sem aquilo que eu era com ele(a)?”

O luto afetivo é esse espaço de entreato; onde a identidade parece suspensa, onde o tempo parece mais lento, onde o sentido parece faltar.

Mas é também ali, nesse mesmo espaço, que uma nova forma de existir começa a se construir, mesmo que ainda invisível.

A travessia entre perda e recomeço

O luto afetivo no divórcio não pede pressa.

Ele pede verdade.

Pede que o sujeito possa sentir sem se punir, respirar sem se cobrar, existir sem se justificar.

Pede que o choro seja permitido, que a raiva possa aparecer, que a tristeza tenha lugar.

Pede que o silêncio seja respeitado.

Que o amor que existiu possa descansar.

E que o amor que não pôde ser reconhecido também encontre lugar para se despedir.

Há quem tente atravessar essa fase pela força;  apagando fotos, mudando rotinas, preenchendo vazios com ruídos.

Mas o luto afetivo não se dissolve pela negação.

Ele só se transforma quando é acolhido.

A travessia começa quando o sujeito compreende que a dor não está errada.

Ela está dizendo que algo importante existiu, e que agora precisa ser reorganizado dentro.

Quando o luto se torna elaboração

A elaboração do luto não acontece de uma vez.

Ela se dá em camadas.

Primeiro, o choque.

Depois, a oscilação entre aceitar e resistir.

Depois, a tentativa de reorganizar a vida prática.

Depois, o encontro com as feridas antigas que o divórcio ativou.

E, por fim, um movimento mais silencioso: a reconciliação consigo.

O luto acaba quando o sujeito deixa de esperar que o passado volte, e, ainda assim, consegue honrar o que viveu.

A dor não desaparece por completa.

Ela muda de forma.

Fica menos aguda, mais espaçada, mais respirável.

E, aos poucos, a vida encontra um ritmo novo.

Quando o sujeito descobre que também pode ser começo

O fim não é o último capítulo.

Ele é a dobra entre dois modos de existir.

Depois do luto, não nasce uma nova identidade pronta.

Nasce apenas um espaço, onde algo pode começar a tomar forma.

É preciso tempo para confiar nesse espaço.

É preciso coragem para habitá-lo.

E é preciso gentileza para não exigir de si algo que só virá ao seu próprio tempo.

O luto afetivo do divórcio é, no fundo, um processo de retorno a si, ao que você deixou guardado para manter um vínculo; ao que você precisou silenciar; ao que não pôde aparecer enquanto o amor tentava sobreviver.

Essa volta para si não é egoísmo.

É sobrevivência emocional.

E, muitas vezes, é o que finalmente permite que o fim seja realmente fim, e que algo, dentro, possa começar.

Se esta travessia fala com algo seu…

Escrevi um material sensível sobre divórcio onde aprofundo essas camadas invisíveis que o fim de uma relação desperta.

Se você sente que está pronta para elaborar isso com cuidado e profundidade, podemos caminhar juntas.

 

 

 

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Mulher sentada sorrindo. Ela tem cabelo castanho escuro, na altura dos ombros, levemente ondulado. Está usando uma blusa de manga curta na cor salmão e uma saia ou calça em tonalidade semelhante. Usa brincos pequenos, colar fino e pulseiras, incluindo uma pulseira dourada com detalhe em verde. O fundo é liso e bege, criando uma sensação de harmonia com as cores da roupa. Ela está sentada de lado, mas voltada para a câmera, transmitindo simpatia e tranquilidade.

"Entre o silencio e a palavra nasce o que pode ser transformado"

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