O divórcio costuma ser compreendido como um acontecimento externo: o fim de um relacionamento, a separação de uma casa, a reorganização da rotina. No entanto, para quem o atravessa, rapidamente fica evidente que o sofrimento não se encerra quando o vínculo formal termina. Algo insiste, mesmo quando a decisão já foi tomada.
Do ponto de vista psíquico, o divórcio não é apenas o rompimento de um laço amoroso, mas a ruptura de uma construção subjetiva. Projetos, identificações, expectativas e modos de se perceber no mundo foram organizados em torno daquele vínculo. Quando ele se desfaz, não é apenas o outro que falta, é uma parte de si que perde sustentação.
É comum que, após o divórcio, surjam sentimentos de culpa, vazio, solidão e confusão emocional. Muitas pessoas se perguntam por que continuam sofrendo se sabem que a separação foi a melhor escolha possível. Essa permanência do sofrimento costuma ser interpretada como fraqueza ou incapacidade de seguir adiante.
A psicanálise propõe outra leitura. O sofrimento não indica erro na decisão, mas a necessidade de elaborar uma perda que não é apenas concreta, mas simbólica. O fim do vínculo convoca um trabalho psíquico que não obedece ao tempo cronológico nem às explicações racionais.
No divórcio, perde-se mais do que o parceiro. Perdem-se projetos compartilhados, uma identidade construída a dois e uma certa organização da vida psíquica. Por isso, o luto afetivo nem sempre se apresenta de forma clara. Ele pode surgir como cansaço, irritabilidade, tristeza difusa ou dificuldade de imaginar o futuro.
Esse luto não responde a conselhos nem a tentativas de aceleração. Quando não encontra espaço para ser elaborado, tende a reaparecer sob outras formas, mantendo o sujeito preso ao que aparentemente já terminou.
→ Se desejar leia também: “Quando o amor termina, mas o vínculo permanece…”
Em muitos casos, o corpo manifesta o sofrimento antes que ele possa ser nomeado. Alterações no sono, no apetite, dores sem causa médica definida e uma sensação constante de tensão são frequentes após o divórcio. O corpo responde à perda quando ainda não há palavras suficientes para simbolizá-la.
Essas manifestações não devem ser vistas como exagero ou fraqueza, mas como tentativas do psiquismo de dar forma ao que ainda não foi elaborado.
→ [link interno sugerido: “O corpo que sente, antes da mente entender o fim”]
Não é raro que, após o divórcio, algumas pessoas se vejam repetindo padrões semelhantes em novos relacionamentos ou permanecendo presas a pensamentos recorrentes sobre o ex-parceiro. Isso ocorre porque o fim do vínculo pode reativar marcas emocionais antigas, ligadas à forma como cada sujeito aprendeu a se vincular e a lidar com perdas ao longo da vida.
Quando essas repetições não são interrogadas, o sofrimento tende a se deslocar de relação em relação, mantendo o sujeito em um mesmo lugar psíquico, mesmo diante de mudanças externas.
→ [link interno sugerido: “Por que a relação acaba, mas o ciclo continua?”]
A psicanálise compreende o divórcio como um tempo de reorganização psíquica. Não se trata de apagar o passado nem de forçar superações, mas de criar condições para que a perda seja elaborada, permitindo que novas posições subjetivas possam se constituir sem a necessidade de repetir antigos modos de sofrimento.
Esse processo exige tempo, escuta e a possibilidade de falar do que insiste sem julgamento. Quando o luto encontra espaço de elaboração, o divórcio deixa de ser apenas uma ruptura e pode se tornar um momento de reposicionamento diante da própria história.
→ [link interno sugerido: “O divórcio como reorganização interna”]
Para algumas pessoas, a leitura de textos pode ajudar a nomear o que está sendo vivido e a compreender melhor os atravessamentos emocionais do divórcio. Para quem sente necessidade de permanecer mais tempo com essas questões, organizando o luto, a repetição e os efeitos subjetivos da separação, desenvolvi um material que aprofunda essa travessia à luz da psicanálise.
→ [continuação em ebook: Psicanálise Descomplicada — Divórcio: por que ele afeta tanto?]
Se, ao longo da leitura, algo do que foi dito toca sua própria experiência, isso não acontece por acaso. Muitas vezes, o sofrimento encontra palavras antes mesmo de encontrar um endereço claro.
A psicanálise oferece um espaço onde aquilo que insiste, pensamentos, afetos, repetições, pode ser escutado com tempo, sem pressa de resposta ou promessa de solução.
Meu trabalho se organiza a partir dessa escuta, tanto no atendimento presencial quanto no acompanhamento online, respeitando o percurso singular de cada pessoa e o tempo necessário para a elaboração do que se vive.
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