Há momentos em que a vida parece avançar: novos caminhos, mudanças externas, decisões importantes. Ainda assim, internamente, algo permanece no mesmo lugar. As mesmas angústias retornam, relações semelhantes se repetem e o sentimento de estar preso a um ciclo reaparece, mesmo diante do desejo consciente de fazer diferente.
Essa experiência costuma gerar confusão e cansaço emocional. Muitos se perguntam por que continuam vivendo situações parecidas, apesar do esforço, da maturidade adquirida ou das mudanças realizadas ao longo do tempo.
Do ponto de vista psicanalítico, a repetição não é simples falta de escolha ou erro de julgamento. Ela diz respeito a modos inconscientes de se relacionar consigo mesmo e com o outro, construídos a partir da história emocional de cada sujeito.
Esses padrões não surgem por acaso. Eles se formam a partir das primeiras experiências de vínculo, cuidado, perda e reconhecimento, e tendem a reaparecer sempre que algo no presente toca essas marcas antigas.
Na vida adulta, a repetição costuma se tornar mais visível em momentos de crise: separações, mudanças profissionais, maternidade, adoecimento ou esgotamento emocional. Nessas fases, as exigências do presente entram em conflito com formas antigas de lidar com o sofrimento.
É comum que o sujeito perceba que, embora os cenários mudem, ele ocupa sempre posições semelhantes: quem sustenta demais, quem se apaga, quem é abandonado, quem não consegue sair de determinados vínculos.
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A repetição não deve ser entendida como condenação ou destino imutável. Ela pode ser lida como uma tentativa do psiquismo de elaborar algo que não encontrou lugar no passado.
Enquanto essas experiências não podem ser simbolizadas, elas retornam sob novas formas, insistindo até que encontrem escuta. É por isso que simplesmente “decidir diferente” nem sempre é suficiente para romper ciclos que causam sofrimento.
A psicanálise oferece um espaço onde a repetição pode ser interrogada, não para eliminá-la rapidamente, mas para torná-la legível. Ao falar sobre o que se repete, o sujeito pode reconhecer a posição que ocupa nesses movimentos e, pouco a pouco, construir outras formas de se relacionar com sua própria história.
Esse processo não é imediato nem linear. Ele exige tempo, escuta e a possibilidade de sustentar perguntas sem a pressa de respostas prontas.
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Muitas crises da vida adulta surgem justamente quando a repetição já não consegue se sustentar. O sofrimento aparece como sinal de que algo precisa ser revisto, elaborado ou deslocado.
Nesse sentido, a crise não é apenas ruptura, mas também convite: um chamado para olhar de outro modo para aquilo que insiste e para o lugar que se ocupa diante do próprio desejo.
Para quem está começando a se perguntar sobre essas repetições e deseja compreender melhor como a psicanálise trabalha com esse tipo de sofrimento, organizei um material introdutório que apresenta os fundamentos do processo analítico e suas possibilidades de elaboração.
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Se, ao longo da leitura, algo do que foi dito toca sua própria experiência, isso não acontece por acaso. Muitas vezes, o sofrimento encontra palavras antes mesmo de encontrar um endereço claro.
A psicanálise oferece um espaço onde aquilo que insiste, pensamentos, afetos, repetições, pode ser escutado com tempo, sem pressa de resposta ou promessa de solução.
Meu trabalho se organiza a partir dessa escuta, tanto no atendimento presencial quanto no acompanhamento online, respeitando o percurso singular de cada pessoa e o tempo necessário para a elaboração do que se vive.
© 2024 Escuta que Transforma · Priscila Dockhom, Psicanalista
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