Há pessoas que atravessam a vida ocupando o lugar de quem sustenta, resolve, cuida e antecipa as necessidades dos outros. São vistas como responsáveis, fortes e disponíveis. No entanto, internamente, muitas carregam um cansaço silencioso, dificuldade de reconhecer os próprios limites e uma sensação persistente de esvaziamento.
Nesses casos, o sofrimento não aparece como crise evidente, mas como desgaste contínuo. A vida segue funcionando, enquanto algo do sujeito vai ficando para trás.
Do ponto de vista psicanalítico, o excesso de responsabilidade não se reduz a um traço de personalidade ou a um problema de organização. Ele costuma se constituir como uma posição subjetiva: um modo de se vincular ao outro e de garantir pertencimento.
Muitas vezes, esse lugar se constrói cedo, quando cuidar, sustentar ou não dar trabalho foi a forma possível de manter o vínculo. Na vida adulta, essa posição se repete, mesmo quando já não é necessária, e começa a produzir sofrimento.
Dizer “não” pode ser vivido como ameaça. Colocar limites desperta culpa, ansiedade ou medo de abandono. O sujeito se mantém disponível, mesmo quando isso custa o próprio bem-estar.
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O medo de decepcionar costuma acompanhar essa posição. A manutenção do vínculo passa a depender da constante adaptação às expectativas alheias, enquanto o desejo próprio permanece suspenso.
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Em muitos casos, pedir ajuda é experimentado como fraqueza. O sujeito aprende a dar conta sozinho, a não precisar, a não incomodar. Com o tempo, essa autossuficiência compulsória se transforma em isolamento emocional.
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O sofrimento aparece não como pedido explícito, mas como cansaço extremo, irritabilidade, vazio ou adoecimento do corpo.
Quando a vida é organizada em função do outro, algo do sujeito deixa de ter lugar. O desejo próprio fica difuso, as escolhas perdem contorno e a sensação de não existir plenamente começa a se impor.
Esse apagamento não acontece de forma abrupta. Ele se instala aos poucos, sustentado pela repetição de uma posição que já não pode ser mantida sem custo psíquico.
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A psicanálise não propõe ensinar a dizer “não” nem oferecer técnicas de limite. Ela oferece um espaço onde essa posição pode ser interrogada: quando ela surgiu, o que sustenta, o que exige e o que impede.
Ao falar do que se repete, o sujeito pode reconhecer o lugar que ocupa nos vínculos e, pouco a pouco, construir outras formas de se relacionar consigo e com o outro, sem que isso precise significar ruptura ou culpa.
Para algumas pessoas, reconhecer esse excesso já é um primeiro movimento. Para outras, é preciso tempo para compreender como essa posição se construiu e por que ela insiste.
A escuta psicanalítica se orienta justamente por esse tempo: o tempo de dar lugar ao que foi silenciado, sem pressa de corrigir ou normalizar.
Se, ao longo da leitura, algo do que foi dito toca sua própria experiência, isso não acontece por acaso. Muitas vezes, o sofrimento encontra palavras antes mesmo de encontrar um endereço claro.
A psicanálise oferece um espaço onde aquilo que insiste, posições, repetições, silêncios, pode ser escutado com tempo, sem promessa de solução imediata.
Meu trabalho se organiza a partir dessa escuta, tanto no atendimento presencial quanto no acompanhamento online, respeitando o percurso singular de cada pessoa.
© 2024 Escuta que Transforma · Priscila Dockhom, Psicanalista
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