A gestação e o puerpério costumam ser apresentados como períodos naturalmente felizes, marcados pela realização da maternidade e pela adaptação espontânea a um novo papel. No entanto, para muitas mulheres, esse tempo é atravessado por sentimentos contraditórios, silêncios difíceis de sustentar e uma profunda sensação de estranhamento de si.
Nem sempre o sofrimento aparece como depressão evidente. Muitas vezes, ele se manifesta como culpa, cansaço extremo, medo de não dar conta ou dificuldade de se reconhecer na imagem idealizada da mãe que “deveria ser”.
A gestação não se limita a um processo biológico. Ela inaugura um tempo psíquico de intensas transformações, em que histórias antigas, vínculos primários e fantasias inconscientes são reativados.
Nesse período, a mulher não se prepara apenas para receber um bebê. Ela também começa a se despedir de posições anteriores: o corpo conhecido, a identidade sustentada até então, os lugares que ocupava nos vínculos. Essas perdas nem sempre são reconhecidas, o que pode intensificar o sofrimento vivido em silêncio.
O puerpério é um tempo marcado por ambivalência. Amor e exaustão, desejo de proximidade e vontade de afastamento, alegria e tristeza podem coexistir sem encontrar palavras.
A idealização da maternidade frequentemente impede que esses sentimentos sejam nomeados. Quando a mulher acredita que “não deveria sentir o que sente”, o sofrimento se intensifica e tende a ser vivido de forma solitária.
Reconhecer a ambivalência não enfraquece o vínculo materno. Ao contrário, permite que ele se construa de forma mais humano e possível.
Com o nascimento do bebê, não nasce apenas uma criança. Nasce também uma nova posição subjetiva, que exige rearranjos profundos na identidade da mulher.
Muitas mulheres relatam sentir que “não são mais quem eram” e, ao mesmo tempo, ainda não sabem quem se tornaram. Esse intervalo identitário pode ser vivido com angústia, especialmente quando não há espaço de escuta para atravessá-lo.
A psicanálise não propõe modelos de maternidade nem estabelece padrões do que seria certo ou adequado. Ela se orienta pela singularidade de cada experiência.
Falar em maternidade possível é reconhecer que cada mulher constrói sua relação com o filho a partir de sua história, de seus limites e de seus recursos psíquicos. Não se trata de alcançar um ideal, mas de sustentar um vínculo que possa existir sem anular o sujeito que materna.
A escuta psicanalítica oferece um espaço onde os sentimentos ambivalentes, os medos, as culpas e as perdas podem ser nomeados sem julgamento. Não para corrigir a experiência, mas para permitir que ela seja elaborada.
Nesse espaço, a mulher pode falar não apenas como mãe, mas como sujeito, com sua história, seus desejos e suas contradições.
Conheça mais sobre o acompanhamento psicanalítico no puerpério
Para algumas mulheres, reconhecer que a maternidade também pode ser atravessada por sofrimento já é um primeiro movimento. Para outras, é preciso tempo para compreender o que esse período mobilizou internamente.
A psicanálise se orienta por esse tempo de elaboração, oferecendo escuta para aquilo que insiste, mesmo quando ainda não encontra palavras.
Escrevi um material onde aprofundo as questões do puerpério a partir de uma leitura psicanalítica, para quem sente necessidade de permanecer mais tempo com essa experiência, com cuidado e sem exigência de respostas prontas.
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Se, ao ler este texto, algo do que foi dito toca sua própria experiência, isso não acontece por acaso. Muitas vezes, o sofrimento encontra palavras antes mesmo de encontrar um endereço claro.
A psicanálise oferece um espaço onde essas vivências podem ser escutadas com cuidado, respeitando o tempo singular vivido por cada mulher no puerpério, tenho um atendimento especifico para este momento no acompanhamento psicanalítico puerperal, online e com sessões de 30 minutos que é possível para este momento tão intenso.
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