Mudanças na vida adulta muitas vezes aparecem como avanços: uma nova cidade, uma nova rotina, uma relação diferente, uma decisão importante, um caminho profissional ajustado, novas responsabilidades.
Vistas de fora, parecem passos firmes; e talvez sejam.
Mas, às vezes, o mundo interno não acompanha o movimento externo, e o sujeito percebe que a vida mudou por fora, mas a experiência íntima ainda não encontrou assentamento.
Esse desencontro pode gerar uma sensação de presença parcial, como se a própria história estivesse caminhando um pouco à frente da própria subjetividade.
Na prática, isso pode se manifestar em situações comuns, porém difíceis de nomear:
Não se trata de ingratidão, incapacidade ou falta de maturidade.
Trata-se de um desencontro entre realidade e subjetividade, onde o sujeito desempenha os papéis necessários, mas a experiência emocional permanece sem integração.
A vida adulta opera em ritmos externos: prazos, decisões, responsabilidades, metas, reajustes.
Mas o psiquismo segue o próprio tempo, que não é linear, nem lógico, nem imediato.
Enquanto a vida muda por fora em dias, semanas ou meses, o afeto pode precisar de mais tempo para processar o que aconteceu, especialmente quando o movimento externo ocorreu por necessidade, proteção, urgência ou sobrevivência emocional.
Esse desalinhamento pode gerar perguntas silenciosas, profundas, e difíceis de organizar:
Esse intervalo, nem mais o que era, nem ainda o que será, não deveria ser interpretado como bloqueio, mas como espaço legítimo de elaboração emocional.
É nesse “entre” que vivem:
Nessa perspectiva, o “entre” não é desajuste; é território psíquico em construção, onde subjetividade e realidade ainda não se alinharam.
Essas experiências não pedem pressa, soluções prontas ou frases motivacionais.
Pedem escuta, tempo e linguagem.
Na psicanálise, o foco não é acelerar o sujeito para “acompanhar a vida”, mas permitir que ele se reconheça dentro dela.
Quando a palavra encontra espaço, o vivido pode ganhar lugar, e o interno pode aproximar-se do externo.
Não se trata de voltar ao que era, mas de encontrar a si no que agora é.
Se você sente que a vida caminhou, mas uma parte sua ainda não chegou junto, isso pode ser um sinal de que é hora de olhar com cuidado para dentro, não para apressar, mas para acolher o que ficou no caminho.
Recomeçar não é apenas seguir adiante.
Às vezes, é se reencontrar antes de seguir.
E, nesse intervalo, você não precisa estar sozinho.
Este texto faz parte de uma reflexão mais ampla sobre repetição psíquica e crises da vida adulta.
Se quiser aprofundar essa leitura, você pode acessar o texto principal aqui:
Repetição psíquica: quando a vida muda por fora, mas algo insiste dentro.
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