Quando o fim abre espaço para existir de outro modo.
Este texto fala sobre a reorganização interna após divórcio, um movimento que acontece muito antes de qualquer reconstrução externa.
Há fins que não chegam como portas que se fecham,
mas como frestas que se abrem.
O divórcio, embora tantas vezes vivido como ruptura, queda, falha ou perda,
pode ser, em silêncio, um movimento de reorganização interna.
Um chamado para voltar a si, não para se isolar.
Para recomeçar, não para apagar.
Para existir, não para se punir.
Depois do término, algo se desloca.
A casa fica maior.
O silêncio fica mais denso.
O corpo fica mais exposto.
E a vida, por um tempo, parece feita de destroços impossíveis de rearrumar.
Mas é nesse mesmo espaço desocupado,
frágil, instável, vulnerável,
que nasce a possibilidade de existir de outro modo.
“O fim não é a morte da história. É a chance de reorganizar a versão de si que existia na história.”
E é exatamente isso que o divórcio faz:
abre espaço interno.
Mesmo que, no início, pareça apenas vazio.
A reorganização interna após o divórcio começa onde o vinculo termina.
O divórcio não desfaz apenas uma relação.
Ele desfaz uma estrutura psíquica que vinha funcionando há anos,
mesmo que funcionando mal.
O vínculo amoroso, mesmo quando doloroso, oferece:
• rotina,
• previsibilidade,
• narrativa,
• identidade,
• função emocional,
• papéis claros.
Quando a relação termina, tudo isso se desfaz.
E é por isso que o divórcio dói tanto,
não porque sempre há amor,
mas porque sempre há estrutura.
A reorganização interna começa, então, pelo choque:
É um período em que o mundo se torna grande demais
e você parece pequena demais para sustentá-lo.
Mas essa sensação é parte do processo, não prova de incapacidade.
É o início da reorganização.
A separação desorienta porque retira pontos de apoio.
E, por um tempo, a vida emocional funciona como quem reaprende a andar:
os passos são curtos,
os movimentos hesitantes,
a confiança oscila,
a direção não está clara.
Essa desorientação não é sinal de desespero.
É sinal de que você saiu do automático que sustentava emoções antigas.
No início, reorganizar dói.
Criar novos modos de existir dói.
Reconhecer-se fora da relação dói.
Mas é uma dor de transição,
não uma dor de fim.
Toda relação longa, de algum modo, molda.
E, muitas vezes, molda mais do que deveria.
Ao ajustar-se ao vínculo, você pode ter deixado partes suas pelo caminho:
• seus desejos,
• sua espontaneidade,
• seus ritmos,
• a forma como expressava afeto,
• a maneira como descansava,
• o que nutria sua alma,
• seus limites,
• sua potência.
A reorganização interna começa quando, depois da dor mais bruta,
você começa a reencontrar essas partes
às vezes por acaso, às vezes por necessidade.
É comum que, após o divórcio, as pessoas digam:
“Eu não sabia que gostava tanto de ficar em silêncio.”
“Eu tinha esquecido o que me fazia bem.”
“Eu me anulei mais do que percebia.”
“Eu estava exausta de tentar sustentar algo sozinha.”
“Eu estou voltando para mim.”
Esses retornos são pequenos, mas profundos.
A reorganização começa assim:
pelas bordas do que você tinha esquecido.
No início, o corpo sofre
ele sente o rompimento antes da mente elaborar.
Mas, aos poucos, o corpo também encontra reorganização:
• o sono volta,
• o apetite estabiliza,
• a respiração aprofunda,
• a ansiedade diminui,
• o peito expande,
• a presença aumenta.
Não porque a dor passou,
mas porque você começa a caber em si mesma de novo.
O corpo sente quando há espaço.
E ele responde a isso.
Depois do choque inicial, depois do luto, depois da desorientação,
chega um ponto em que o espaço interno começa a mudar de forma.
O que antes era deserto,
fica mais parecido com terreno fértil.
O que antes era vazio,
vira possibilidade.
O que antes era silêncio que esmagava,
vira silêncio que acolhe.
A reorganização interna não é um acontecimento.
É movimento.
E movimento tem fases:
Recomeçar não é reconstruir a vida que existia,
é construir uma vida que nunca pôde existir enquanto você se anulava para caber.
Há quem tente, após o divórcio, voltar a ser quem era antes da relação.
Mas isso é impossível.
Porque você não é mais a mesma.
E não precisa ser.
A reorganização interna não busca a versão antiga;
busca a versão verdadeira.
A que não se encolhe.
A que não apaga o próprio desejo.
A que não vive em função do outro.
A que não pede desculpas por existir.
A que não aceita migalhas emocionais.
A que sabe reconhecer limites.
A que sustenta o próprio espaço.
A que se permite amar sem se perder.
A que se permite ser amada sem medo de desaparecer.
A reorganização leva você para uma versão de si que não existia antes.
Não porque faltava amor,
mas porque faltava espaço.
O fim só vira trauma quando a dor fica congelada.
Quando ela não encontra palavra, nem elaboração, nem movimento.
Mas quando a dor encontra escuta,
quando as feridas encontram nome,
quando a história encontra sentido,
o divórcio deixa de ser ruptura
e se torna travessia.
A travessia é o caminho entre:
• o que acabou,
• o que precisa ser entendido,
• o que pode ser reconstruído,
• e o que deseja nascer.
Nada disso acontece rápido.
Mas acontece.
O fim abre espaço para existir de outro modo.
Existir de outro modo é:
• viver mais perto de si,
• desejar com menos medo,
• escolher com mais consciência,
• amar com mais maturidade,
• estabelecer limites sem sentir culpa,
• reconhecer o próprio valor,
• sentir a casa como abrigo, não cárcere,
• pertencer a si antes de pertencer ao outro.
O divórcio é o fim de uma história,
mas pode ser o começo do sujeito.
Um começo menos romântico,
menos idealizado,
mas muito mais real.
Existir de outro modo é existir com dignidade emocional.
E isso, no fim, é o que mais importa.
Na psicanálise, o divórcio não é tratado como fracasso,
mas como acontecimento psíquico.
Aqui, você pode:
• dar sentido ao que viveu,
• reconhecer o que perdeu,
• integrar o que aprendeu,
• entender o que repetiu,
• elaborar as dores antigas despertadas pelo fim,
• separar passado de presente,
• reencontrar versões suas que estavam silenciadas,
• criar espaço interno para existir de outro modo.
A análise não conserta o fim.
Ela transforma o significado dele.
Toda reconstrução afetiva envolve algum nível de reorganização interna após o divórcio, mesmo quando isso acontece de forma silenciosa.
Atendimento online com presença e profundidade.
Ou presencial em Campinas
Se você está atravessando essa reorganização interna no divórcio, e sente que a vida está te chamando para existir de outro modo, posso caminhar com você nesse processo.
© 2024 Escuta que Transforma · Priscila Dockhom, Psicanalista
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